Alquimia

O filósofo, santo e cientista Alberto o Grande louvou 8 Virtudes nos Alquimistas: eles são discretos e silenciosos; moram bem longe dos homens; escolhem o tempo do seu trabalho; são pacientes, assíduos e perseverantes; executam segundo as regras herméticas a trituração a fixação, a destilação e a coagulação; trazem cadinhos, vasos de vidro e potes de louça bem iluminados. Mas há os que as degradaram a começar pela essencial: evitar pessoas de temperamento sórdido. Para alguns, a falta de rigor empírico, o flerte com a magia, a busca do poder mundano pela transmutação de vis metais em ouro fazem da Alquimia a história de uma quimera senão uma fraude. Para outros é o supremo dom divino, a arte de integrar o mundo natural ao espiritual pela reflexão, ação e criação de um coração puro. Do Egito, à China, à Índia até o mundo islâmico e a cristandade, a epopeia mais fabulosa da história das ciências mescla romance, superstição, medicina, piedade, tecnologia, trapaça, tragédia, poesia, humor. Forjados na fé do deus três vezes grande Hermes de que o que está no alto está em baixo, o grande no pequeno, o dentro fora, o Um em Todos e Todos no Um, ora cortejando Sofia a Divina Sabedoria ora barganhando com o Demônio como Fausto, para cada imperador ou papa que baniu a alquimia há um imperador ou papa alquimista. Estimada por filósofos como Maimônides ou Tomás de Aquino, praticada por pais da ciência como Boyle e Newton, tão cobiçada quanto ridicularizada por suas panaceias, a Pedra Filosofal ou o Elixir da Vida, quem dirá que a alquimia não tocou a volátil quintessência do pó, do poder e da felicidade? Há milênios comungamos fermentados como cerveja ou vinho em rituais familiares e religiosos com amigos, mortos e deuses, mas só dos alambiques alquimistas veio a prata e o ouro líquidos dos destilados. Ela inspirou Monteverdi se instilando na forja da mais espetacular das artes, a ópera, e foi o crisol do cinema: um alquimista árabe inventou a câmara escura e um francês pode ter fixado imagens fotográficas em 1750, cem anos antes de Daguerre. Paracelsus foi precursor da homeopatia e da alopatia. Buscando ouro na urina, um alquimista de Nuremberg descobriu o fósforo que queima em nossos palitos e queimou nas bombas que aniquilaram Nuremberg. Rutherford, um pai da física nuclear, se dizia um “alquimista moderno”. Jung viu nos laboratórios alquímicos os elementos de sua psicologia profunda. Paulo Coelho forjou o chumbo de sua “Lenda Pessoal” pregando a “Mão que Tudo Escreveu” e a transmutou em ouro literário e literal na aventura do seu Alquimista na qual uma massa de leitores viveu seu sonho de descobrir o tesouro secreto que sempre possuiu no deserto de suas vidas. A física hoje persegue o enigma da integração do macromundo da relatividade geral e do microuniverso quântico, afirma a mutação da matéria pela observação, e a interconexão de fenômenos distantes como o voo de uma borboleta e um maremoto ou uma partícula no Sol, outra na Lua e outra na Terra, e dá a qualquer um a chave para transmutar chumbo em ouro, basta bombardeá-lo num acelerador de partículas a custos astronômicos em troca de quantidades microscópicas. Em nossos tempos de fé dogmática na ciência, de nostalgia delirante por uma medicina holística e de profecias transumanistas, terão os alquimistas desaparecido para sempre ou estão chegando?

Convidados

Ana Maria Alfonso-Goldfarb: professora de história da ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Márcia Ferraz: professora de história da ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Paulo Porto: professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo.

Fontes em O Grande Teatro do Mundo
Referências 
  • Da Alquimia à Química de Ana Maria Alfonso-Goldfarb.
  • Percursos da História da Química e “A Passagem da Alquimia à Química” em ComCiência – Revista Eletrônica de Jornalismo Científico; “Lost Royal Society documents on ‘alkahest’ (universal solvent) rediscovered” e outros em The Royal Society Journal of Science de M. Alfonso-Goldfarb e Márcia H. M. Ferraz
  • Ferreiros e Alquimistas de Mircea Eliade.
  • “‘Summus atque felicissimus salium’: The Medical Relevance of The liquor alkahest” de Paulo A. Porto. Bulletin of the History of Medicine, V. 76, 2002, pp. 1-29.
  • Alchemy e Makers of Chemistry de Eric John Holmyard.
  • The Alchemy Reader: from Hermes Trismegistus to Isaac Newton editado por Stanton J. Linden.
  • Geschichte der Alchemie de Claus Priesner.
  • The secrets of alchemy de Lawrence M. Principe.
  • Secrets of Nature, Astrology and Alchemy in Modern Europe editado por William R. Newman e A. Grafton.
  • 33 Alchemistinnen. Die verborgene Seite einer alten Wissenschaft de Jette Anders.
  • SHAC: Society for the History of Alchemy and Chemistry.
  • Dizionario di alchimia e di chimica farmaceutica antiquaria. Dalla ricerca dell’oro filosofale all’arte spagirica di Paracelsode Marcello Fumagalli.
  • ESSWE: European Society for the Study of Western Esotericism.
  • Storia, procedimenti, segreti alla ricerca della pietra filosofale de Roberto Tresoldi.
  • Association for the Study of Esotericism.
  • The Alchemy Website.
  • Alchemy entrevista radiofônica em In Our Time da Radio BBC.
  • Le fixe et le volatil : Chimie et alchimie, de Paracelse à Lavoisier de Didier Kahn
  • Alchemy em Dictionary of the History of Ideas.
  • Alchemie: Was ist das? de Horst Friedrich.
  • Breve historia de la alquimia de Guillermina Martín Reyes.
  • Alchemie – Sinn und Weltbild de Titus
  • Alkimia Operativa and Alkimia Speculativa. Some Modern Controversies on the Historiography of Alchemy de George Calian.
  • “Chemistry, That Starry Science – Early Modern Conjunctions of Astrology and Alchemy” de Peter J. Forshaw, em Sky and Symbol, editado por Nicholas Campion e Liz Greene.
  • Alchemy and Chemistry in the Seventeenth Century editado por Allen G. Debus e Robert P. Multhauf.
  • La tradizione ermetica de Julius Evola.
  • The Origins of Alchemy in Graeco-Roman Egypt de Jack Lindsay.
  • The Black Arts de R. Cavendish.
  • Le meraviglie della natura. Introduzione all’alchimia de Elémire Zolla.
  • Encyclopedia of the Occult editada por Fred Gettings.
  • Arcana sapienza. L’alchimia dalle origini a Jungde Michela Pereira.
  • Chemical History Tour, Picturing Chemistry from Alchemy to Modern Molecular Science de Adele Droblas Greenberg.
  • Miti e storie di alchimisti tra il medioevo e l’età contemporânea de Furio Gallina.
  • Dictionary of Alchemy: From Maria Prophetessa to Isaac Newton editado por Mark Haeffner.
  • Geheimnisse der Alchemie de Manuel Bachmann e Thomas Hofmeier.
  • L’alchimia come via allo spirito: l’autorealizzazione magica e la psicologia del profondo svelate dalla tradizione ermetica de Tommaso Palamidessi.
  • Dictionnaire critique de l’ésotérisme editado por Jean Servier.
  • Promethean Ambitions: Alchemy and the Quest to Perfect Nature de William R. Newman.
  • Histoire de l’alchimie de Bernard Joly.
  • Die königliche Kunst. Eine Geschichte der Alchemie de Reinhard Federmann.
  • Alchemie de Helmut Gebelein.
  • Contribution à l’histoire de l’art alchimique de Jacques van Lennep.
  • Auf der Suche nach dem Stein der Weisen. Die Geschichte der Alchemie de Hans-Werner Schütt.
  • Alchemy in Europe. A Guide to Research de Claudia Kren.
  • A History of Magic and Experimental Science de Lynn Thorndike.

Apresentação: Marcelo Consentino
Produção técnica: Afrânio Cruz / Rádio Eldorado
Ilustração: Gravura para o livro de J.D. Mylius Opus Medico-Chymicum (1618), representando os três mundos do sistema ocultista, a os Quatro Mundos dos Cabalistas. 

24 de outubro de 2018